SOCIOLOGIA JURÍDICA
RESENHA
CÂMARA,
Heleusa Figueira. Além dos muros e das grades (discursos prisionais). São
Paulo: EDUC, 2001.
Luiz Antônio Bogo Chies – Doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Doutor em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidad del Museo Social Argentino (UMSA/Argentina); Professor Adjunto na Universidade Católica de Pelotas (UCPel/RS), responsável pela disciplina de Sociologia Jurídica. Coordenador Geral do Grupo Interdisciplinar de Trabalho e Estudos Criminais-Penitenciários (GITEP-UCPel).
Resumo:
Opondo-se ao desprezo da individualidade e da identidade que caracteriza os
ambientes e dinâmicas carcerárias, a obra de Heleusa Figueira Câmara – Além
dos Muros e da Grades (discursos prisionais) – apresenta uma desveladora
reflexão, análise e compreensão da prisão, do sistema social desta, e da
experiência do encarceramento. Tal desvelamento se dá com o resgate da
dignidade do preso e com a valorização de sua auto-expressão, através das escritas de si dos apenados, que dão visibilidade aos discursos
prisionais. Seu resultado nos fornece um substancial quadro da “riqueza” de
paradoxos, institucionais e existenciais, que perpassam e avançam para além
dos muros e das grades.
Palavras-Chave:
prisões – prisioneiros – narrativas – identidade
A prisão, o sistema social que nesta se constitui – que, como observa
Augusto Thompson (1991, p.19), também citando Sykes[1],
“não é uma miniatura da sociedade livre, mas um sistema peculiar” –, é
um ambiente de esquecimento e desprezo da individualidade e da identidade; é um
ambiente do paradoxo entre o isolamento e a vida “em massa”[2],
no qual a auto-expressão é objeto de repressão explícita ou implícita,
desde as regras de silêncio dos sistemas de Pensilvânia e Auburn, passando
pelos superlotados presídios modernos e avançando para a incomunicabilidade
das tecnológicas instituições de seqüestro, bem como dos atuais “Regimes
Disciplinares Diferenciados”.
É, contudo, em confronto com esse desprezo, e através do resgate da
identidade, da individualidade e da valorização da auto-expressão do preso,
que a obra de Heleusa Figueira Câmara – Além dos Muros e da Grades
(discursos prisionais) – apresenta uma desveladora reflexão, análise e
compreensão da prisão, do sistema social desta, e da experiência do
encarceramento, na riqueza de paradoxos institucionais e existenciais que
perpassam seus muros e grades.
A obra, que se formaliza numa dissertação de Mestrado em Ciências
Sociais, junto à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, tem sua gênese
na práxis multifacetada da autora – como docente na Universidade Estadual do
Sudoeste da Bahia (Uesb), como integrante e ex-presidente do Conselho da
Comunidade na Comarca de Vitória da Conquista, como cidadã, enfim, como
Cientista Social – e se constitui, no avançar do compromisso teórico e prático
do campo acadêmico, através do diálogo tenso e intenso entre escritos de
presos – envolvidos, desde 1989, em projetos de incentivo à leitura e produção
textual –, abordagens científicas dos campos humanos e sociais, além dos próprios
referenciais literários das práticas punitivas (aqui incluindo Dostoiévski,
Kafka, entre outros).
No campo metodológico, Foucault é apresentado como base, e as escritas
de si dos apenados – “um exercício pessoal que, de forma linear, vai da
meditação à escrita e à prova e, de forma circular, vai da meditação à
escrita, à releitura e à meditação” (Câmara, 2001, p.32) – como objeto
de análise, para que se dê visibilidade aos discursos prisionais. Ainda nesse
capítulo nos são apresentados os principais protagonistas desses discursos: Hélio
Alves Teixeira, José Raimundo dos Santos e Rosieles Ramos Sales.
“Fronteiras”, o segundo capítulo, no dizer da própria autora,
apresenta “um breve estudo sobre as massas humanas, sua constituição, suas
separações e seus objetivos” (2001, p.35). As noções de malta –
“unidades mais antigas das massas, exercendo funções semelhantes, cujos
atores sociais se mantêm alertas nas representações de papéis definidos, de
disposições para embates, ordem, moralidades, prevenção, vigilância e punição”
(Câmara, 2001, p.35) – e a noção de arena, como espaço de massa duplamente
fechado, assumem relevância no contexto de compreensão do sistema social que
se constitui no ambiente carcerário, e nas representações dos atores sociais
ali encontrados.
Já substancialmente permeado pelas escritas dos apenados, esse capítulo
nos permite ingressar nos antagonismos, paradoxos e angústias tanto do sistemas
social carcerário, como da vivência daqueles que nele estão imergidos. A tensão
e a atenção constante intra e entre as “maltas” de apenados e equipes
funcionais; a experiência social do tempo, que se faz sentir e pesar, pois,
como registra Pierre Bourdieu, o tempo “só é realmente sentido quando se
rompe a coincidência quase automática entre as esperanças e as
oportunidades” (2001, p.256); a estigmatização do preso, que retira sua
dignidade e humanidade no interior e exterior do cárcere, são pontos de
destaque dessas “Fronteiras” que nos separam, delimitando locais e dinâmicas
de exercício privilegiado de poder e punição.
E, percebidas as “Fronteiras”, Câmara avança, em seu terceiro capítulo,
na direção das “Muralhas” – recursos concretos e simbólicos da separação
das massas. Nesse sentido Vitória
da Conquista, município baiano que é palco principal do drama que se desvela
nos discursos prisionais focados, é apresentado em sua história e sociogênese.
Mesmo que reservadas suas peculiaridades, a origem e trajetória beligerante do
município, no confronto aniquilador das categorias sociais nativas pela
“ordem” do colonizador, é exemplo de prática não isolada na (des)construção
do “Novo Mundo” e, portanto, suficiente indicativo do belicoso caráter
geral que, em nossa realidade, assumem as muralhas na delimitação das
fronteiras punitivas.
Os espaços prisionais Conquistenses – que não destoam das
precariedades estruturais, higiênicas e de dignidade que caracterizam as
carceragens brasileiras, ampliando, assim, o potencial absorvente e
dessocializante das instituições totais e de seqüestro – também são alvo
de atenção e análise neste capítulo, no qual a narrativa da bizarra comemoração
festiva de inauguração de um novo estabelecimento, coroa a percepção da
esquizofrenia politico-criminal em que estamos inseridos.
Nestes se desenvolve toda a riqueza central da obra de Câmara e da
metodologia que utiliza – a partir das escritas de si dos apenados – para
desvelar não só a sociedade intramuros e o cotidiano prisional, mas, também,
e sobretudo, os próprios discursos dos protagonistas apenados, na auto-expressão
reflexiva e no resgate de identidades.
Em tais capítulos, como sintetiza a autora em momento introdutório da
obra, verifica-se que:
A
soma de vozes dos prisioneiros, quer escritas, quer narradas, evidenciam um
discurso em que as palavras e o que elas significam atendem a procedimentos que
visam à defesa, ao consolo, à agressão, ao convencimento, à inclusão. São
estratégias, em práticas discursivas, cujas autorias ficam diluídas por todas
as interdições que se apresentam aos discursos, principalmente quando procedem
dos que são vistos como inimigos. A escrita do prisioneiro faz parte do
discurso que lhe é possível proferir na circunstância vivida, mas “é
aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual nós queremos apodera, 1996
(...)” (Foucault, 1996a, p.10)[3]
(Câmara, 2001, p.32)
Mas,
igualmente, percebe-se que:
A
escrita “prisioneira” liberta, na concretude do texto, quer seja simples,
prosaica, gasta ou cheia de intenções outras, que as palavras escondem.
Desponta como estado de saúde, ao conceder novas autorias e possibilitar que se
vislumbre o recorte da face de tantos “homens obscuros”. Revolve a crosta
que emperra os gonzos da porta fechada pelos guardiões dos discursos, que
estabelecem normas para acesso e uso das palavras-histórias, considerando
banal, insignificante tudo que não atenda aos parâmetros da arte literária.
Insere, num dos muitos quartos da literatura, a escritura do prisioneiro, seja
ela singela, de apontamento, de missiva, em que a poética da experiência
vivida e desejada se sobrepõe ao relato da ação classificada como transgressão,
mas que para Maurice Blanchot (apud Foucault, 1992)[4]
não pode ser conhecida.
Escrever
é, pois, mostrar-se sem pejo, é fazer aparecer o rosto junto ao outro. O
desejo e o risco não se escondem, escorrem pelos poro da pele desnudada. O
texto pessoal, destinado ao outro, é reativador, pois, à medida que o
orientado vai progredindo, adquire a capacidade de também orientar. É uma
forma eqüitativa e igualitária. (Câmara, 2001, p.226)
E, frente à possibilidade de se revitalizar o indivíduo e a identidade
– o que de modo algum pressupõe o preconceito de uma ontologia criminosa,
patologia a ser tratada –, as considerações finais do trabalho de Câmara
– “Vias de mão dupla” – questionam
os propósitos e a necessidade das prisões.
O medo irracional do outro, que provoca estranhamento e desejo de anulação
daquele (Bauman, 1998); a impessoalidade do sistema de Justiça Criminal; a mídia,
que colabora para a formação do grande tribunal, amparada por um aparato que
estimula a suspeita (Câmara, 2001, p.271); são fatores que provocam o paradoxo
de um sistema cada vez mais punitivo, e cada vez mais frustrado[5].
Assim, numa análise que envolve os paradoxos da questão punitiva,
aproxima-se a autora, não de forma acrítica ou simplista, do ideário
abolicionista, que se dispõe à experiência de novas formas resolutivas de
conflitos, reparatórias e não punitivas, no desencadear de estratégias
sociais de aproximação dos sujeitos.
Não existem julgamentos no texto, mas sim resgates de identidades que
permitem dignificar, (re)humanizando os protagonistas prisionais e seus
discursos, aqueles que segregados no intramuros das fronteiras nos alertam para
as prisões em que vivemos: Além dos muros e das grades.
Bibliografia:
BAUMAN,
Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
BOURDIEU,
Pierre. Meditações Pascalinas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.
CÂMARA,
Heleusa Figueira. Além dos muros e das
grades (discursos prisionais). São Paulo: EDUC, 2001.
DOSTOIÉVKI,
Recordações da Casa dos Mortos. Rio de Janeiro: José Olympio,
1961.
GARLAND,
David. Castigo y sociedad moderna: un
estudio de teoría social. México: Siglo XXI, 1999.
[1]
Gresham M. Sykes. The Society of
Captives. Princeton Un. Press: New Jersey, 1972.
[2]
Thompson, ainda com referência a Sykes, registra: “Não é a solidão que
perturba os indivíduos na comunidade carcerária mas, sim, a vida em massa” (1991, p.23). Dostoiévki, no campo literário, mas com
a imagem vivida e vívida do encarceramento, igualmente manifesta: “Por
exemplo, não poderia conceber nunca o tormento espantoso de não poder
ficar só – um minuto que fôsse – durante os dez anos em que estive prêso”
(1961, p.36).
[3]
Preservamos a citação que Câmara faz, no mencionado trecho, a Foucault.
Explicitamos, então, a fonte bibliográfica da autora:
FOUCAULT,
Michel (1996a). A
ordem do discurso.
São Paulo, Edições Loyola.
[4]
Preservamos a citação que Câmara faz, no mencionado trecho, a Foucault.
Explicitamos, então, a fonte bibliográfica da autora: FOUCAULT,
Michel (1992). O que é um autor.
Portugal, editora Vega (Coleção: Passagens).
[5]
David GARLAND, sintetiza com propriedade: “El castigo a los transgresores
es un aspecto social particularmente inquietante y desalentador: Como política
social es una decepción perpetua, ya que sus metas nunca oarecen cumplirse,
y está siempre socavada por crisis y contradicciones de diversa índole. Como
problema moral o político, suscita emociones violentas, grandes conflictos
de intereses y desacuerdos irresolubles” (1999, p.13).
Desde
05/10//2005