SOCIOLOGIA JURÍDICA
RESENHA
BAUMAN,
Zygmunt. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 2003[1].
Luiz Antônio Bogo Chies – Doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Doutor em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidad del Museo Social Argentino (UMSA/Argentina); Professor Adjunto na Universidade Católica de Pelotas (UCPel/RS), responsável pela disciplina de Sociologia Jurídica. Coordenador Geral do Grupo Interdisciplinar de Trabalho e Estudos Criminais-Penitenciários (GITEP-UCPel).
RESUMO:
Neste livro, o mais recente, no Brasil, das traduções da obra de Zygmunt
Bauman, o foco principal da análise é a comunidade; e esta, sobretudo, no
atrito que provoca entre a segurança que oferta e que anseiam os que nela vivem
e a “liberdade” que, como preço, então, para ela pagam e experimentam.
Mas, esta não é uma obra somente sobre “comunidade”, também, e sobretudo,
trata da sociedade excludente na qual nos inserimos e na qual, sem ilusões,
temos que operar. O conteúdo da obra, que não nos mascara sobre as
possibilidades de uma comunidade ética, alerta-nos para os parâmetros daquela
que possa a vir se realizar.
Palavras-Chave: comunidade – comunitarismo – sociedade moderna – exclusão
Neste livro, o mais recente das traduções que a Editora Jorge Zahar têm,
no Brasil, lançado a partir da obra de Zygmunt Bauman[2], o sociólogo polonês
(radicado na Inglaterra) tem como foco principal de sua análise a comunidade; e
esta, sobretudo, no atrito que provoca entre a segurança que oferta e que
anseiam os que nela vivem e a “liberdade” (redução de, diminuição de
autonomia, direito à auto-afirmação e à identidade) que, como preço, então,
para ela pagam e experimentam.
A abordagem de Bauman segue, nesse livro, de forma coerente sua compreensão
acerca das ambigüidades e ambivalências enfrentados pela sociedade em seu estágio
atual; uma Modernidade Líquida e Fluída, imensamente mais dinâmica e flexível
do que a Modernidade Sólida que suplantou (ver: Bauman, 2001). Trata-se, pois,
de uma abordagem sem ilusões, que se pauta na trajetória sócio-histórica da
modernidade, como uma auto-atribuição humana de uma missão ordenadora do
mundo social (veja-se a metáfora do jardineiro, tão bem trabalhada tanto em
Bauman, 1998, como em 1999), e alcança a sociedade de risco (como propõe
Ulrich Beck, 1996), na qual o “mito” moderno de segurança e ordem se
desmantela e se liqüefaz, redimensionando as dinâmicas sociais e nos exigindo
atentar para paradoxos que antes permitíamos estarem mascarados.
O atrito que norteia esta obra de Bauman – sobre “Comunidade” –,
e na perspectiva não ilusória de sua sociologia, está sintetizado já na
introdução ao texto, quando consigna:
Não
seremos humanos sem segurança ou sem liberdade; mas não podemos Ter as duas ao
mesmo tempo e ambas na quantidade que quisermos. Isso não é razão para que
deixemos de tentar (Não deixaríamos nem se fosse uma boa razão). Mas serve
para lembrar que nunca devemos acreditar que qualquer das sucessivas soluções
transitórias não mereceria mais ponderação nem se beneficiaria de alguma
outra correção. O melhor pode ser inimigo do bom, mas certamente o
“perfeito” é um inimigo mortal dos dois. (2003, p.11)
O primeiro capítulo do livro – A agonia de Tântalo – situa-nos no atrito que norteia a seqüência e a proposta do texto, já colocando, de imediato, em destaque os paradoxos enfrentados na questão da busca de identidade, a qual, por exigir singularidade e diferença, já é, em si, uma fissura na perspectiva de homogeneidade e compartilhamento que a noção primeira de comunidade faz referência. Novamente a segurança e a liberdade são apresentados em seu conflito:
A
promoção da segurança sempre requer o sacrifício da liberdade, enquanto esta
só pode ser ampliada à custa da segurança. Mas segurança sem liberdade
equivale a escravidão (e, além disso, sem uma injeção de liberdade, acaba
por ser afinal um tipo muito inseguro de segurança); e a liberdade sem segurança
equivale a estar perdido e abandonado (e, no limite, sem uma injeção de
segurança, acaba por ser uma liberdade muito pouco livre). Essa circunstância
provoca nos filósofos uma dor de cabeça sem cura conhecida. Ela também torna
a vida em comum um conflito sem fim, pois a segurança sacrificada em nome da
liberdade tende a ser a segurança dos outros;
e a liberdade sacrificada em nome da segurança tende a ser a liberdade dos outros.
(2003, p. 24)
A seqüência do livro – capítulos 2, 3 e 4 (A reinserção dos
desenraizados; Tempo de desengajamento: ou a grande transformação, segundo
tempo; e, A secessão dos bem-sucedidos) – reserva a contextualização e análise
das dinâmicas e processos sociais que compõe o trânsito da Modernidade sólida
à líquida, com ênfase no trabalho e na instabilidade das relações, por mais
que haja esforço no sentido da estabilidade. O resultado desse trânsito molda
a conjuntura na qual se faz necessário refletir sobre as “Duas fontes do
comunitarismo”; questão abordada no capítulo 5, quando Bauman nos remete às
noções de comunidades estéticas e comunidades éticas.
Nesse sentido, a sociedade do mérito individual e competitivo, que se
funda no caráter premial do privilégio e, portanto, punitivo da ausência
deste (como falta de mérito) e, também, no consumo como signo “palpável”
de mérito, é uma sociedade que se firma na manutenção categorizadora das
diferenças – com atributos negativos a determinadas diferenças – e numa
política de distinções. Seus membros são estimulados a não estabelecer
compromissos de longo prazo:
Quaisquer que sejam os laços estabelecidos na explosiva e breve vida da comunidade estética, eles não vinculam verdadeiramente: eles são literalmente “vínculos sem conseqüências”. Tendem a evapora-se quando os laços humanos realmente importam – no momento em que são necessários para compensar a falta de recursos ou a impotência do indivíduo. Como as atrações disponíveis nos parques temáticos, os laços das comunidades estéticas devem ser “experimentados”, e experimentados no ato – não levados para casa e consumidos na rotina diária. São, pode-se dizer, “laços carnavalescos” e as comunidades que os emolduram são “comunidades carnavalescas”. (2003, pp.67-68)
Já a comunidade ética seria, em quase tudo, o oposto das comunidades
estéticas:
Teria
que ser tecida de compromissos de longo prazo, de direitos inalienáveis e
obrigações inabaláveis, que, graças à sua durabilidade prevista (melhor
ainda, institucionalmente garantida), pudesse ser tratada como variável dada no
planejamento e nos projetos de futuro. E os compromissos que tornariam ética a
comunidade seriam do tipo do “compartilhamento fraterno”, reafirmando o
direito de todos a um seguro comunitário contra os erros e desventuras que são
os riscos inseparáveis da vida individual. (2003, p. 68)
Por fim, ênfase cabe ainda ao capítulo 8 – O nível mais baixo: o
gueto – no qual Bauman, com a perspicácia que lhe é peculiar, e que lhe
autoriza o diálogo e às referências que lhe são feitas nas obras de
destacados autores atuais da questão do controle social (Nils Christie, Jock
Young, entre outros), sintetiza que esta moderna “forma” social – o gueto
– quer dizer impossibilidade de
comunidade; e complementa:
Essa
característica do gueto torna a política de exclusão incorporada na segregação
espacial e na imobilização de uma escolha duplamente segura e a prova de
riscos numa sociedade que não pode mais manter todos os que podem jogar
ocupados e felizes, e acima de tudo obedientes. (2003, p.111)
Esta obra de Bauman é, pois, não só um livro sobre “comunidade”,
mas também, e sobretudo, sobre a sociedade excludente na qual nos inserimos e
na qual, sem ilusões, temos que operar.
Longe de um pessimismo, o conteúdo da obra, que não nos mascara sobre
as possibilidades da comunidade ética, alerta-nos para os parâmetros daquela
que possa a vir se realizar:
Se
vier a existir uma comunidade no mundo dos indivíduos, só poderá ser (e
precisa sê-lo) uma comunidade tecida em conjunto a partir do compartilhamento e
do cuidado mútuo; uma comunidade de interesse e de responsabilidade em relação
aos direitos iguais de sermos humanos e igual capacidade de agirmos em defesa
desses direitos. (2003, p.134)
Bibliografia:
BAUMAN,
Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
_______.
Modernidade e ambivalência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.
_______.
Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
2001.
_______.
Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 2003.
BECK, Ulrich. Teoría de la sociedad del riesgo. In: BERIAN, Josetxo (comp.). Las consecuencias perversas de la modernidad: Modernidad, contingencia y riesgo. Barcelona: Anthropos, 1996, pp.201-222.
[1]
Tradução da primeira edição inglesa: Community:
seeking safety in na insecure world. Polity Press & Blackwell Publishing
Ltd., Oxford, 2001. Tradutor:
Plínio Dentzien.
[2]
Pela editora Jorge Zahar já foram publicados os seguintes livros de Zygmunt
Bauman: Modernidade e Holocausto (1998); O mal-estar da pós-modernidade
(1998); Modernidade e ambivalência (1999); Globalização: as conseqüências
humanas (1999); Em busca da política (2000); e, Modernidade líquida
(2001). Do mesmo autor, em língua portuguesa, ainda mencionamos os livros:
Ética pós-moderna (São Paulo: Paulus, 1997), e, A liberdade (Lisboa:
Estampa, 1989).
Desde
05/10//2005