SOCIOLOGIA JURÍDICA
Augusto
Jobim do Amaral:
Advogado, Professor de Criminologia e Direito Penal da Universidade de Passo
Fundo, Especialista em Ciências Penais pela PUCRS, Especialista em Direito
Penal Econômico e Europeu pela Universidade de Coimbra e Mestrando em Ciências
Criminais pela PUCRS.
Resumo:
Falar de violência, questão polissêmica por excelência, requer uma reflexão
muito adiante da mera questão criminal, ou seja, para o seu entendimento devem
ser notadas suas inúmeras propriedades heterogêneas derivadas de séries múltiplas.
O recorte feito por nosso trabalho vai ao encontro da idéia do fenômeno violência
como parte estrutural da socialidade sempre presente em quaisquer sociedades e
épocas, ainda que os anseios modernos o intuíssem controlá-los e extirpá-los
definitivamente. Procuro descrever o ideário de nossa civilização que
constantemente desdenhou esta dinâmica, colocando a violência como à
“margem da cultura”, associada a um caráter caótico – no sentido
desconstrutivo do termo – negando seu caráter nuclear.
Palavras-chave: violência social – cultura – modernidade – totalitarismo
No
intuito de nos aproximarmos de um exame da miudez cotidiana, alguns aspectos
tidos como superficiais devem ser trazidos à tona. A obscuridade com que o tema
da violência é tratado impõe uma virada vertiginosa que deve destacá-la como
viga mestra do dia-a-dia social “e não como saldo negativo anacrônico de uma
ordem bárbara em vias de desaparecimento”.[1]
Neste ponto frise-se o paradoxo que o estudo se propõe, em virtude do caráter
rebelde do fenômeno, na medida em que se arrisca a perceber as “constantes” que
se exprimem reiteradamente na instabilidade do social.
A
dinâmica moderna tentou incansavelmente suprimir toda e qualquer manifestação
ambígua ou dúbia que pudesse colocar em suspenso a mola de racionalidade e da
planificação.[2]
Talvez não tenhamos constância que traduza tão bem sua ambivalência como o
complexo fenômeno da violência. Sua centralidade subterrânea deve ser
enfrentada como algo comum em todo conjunto civilizacional em qualquer época.
Intrinsicamente
presente, com relação a ela se deve empregar um artifício de negociação (ritualização),
como escreve MAFFESOLI,[3]
antes de rapidamente condená-la e mesmo imprimir mecanismos de controle que
acabam, não raro, gerando efeitos mais nocivos à própria socialidade.
Tendo
o conflito como fato central do convívio social, deve-se tentar interpretar
seus informes ambivalentes por excelência, e, sobretudo, entrever que a própria
heterogeneidade é geradora de violência e ao mesmo tempo fonte de vida.
Caminho árduo este que vai de encontro às mortíferas afinidades modernas para
com o “idêntico” e o “pacífico”. Contra a “parte da sombra”
progressivamente empreenderam-se os mais diversos arranjos de controle em benefício
de uma normalidade ascética. Nossas estruturas – aqui tem lugar privilegiado
as agências do controle penal – não toleram obscuridades, não foram
forjadas para negociar com as zonas malditas do social. Um ambiente de violência
generalizada torna-se fértil num apanhado social que destaca a assepsia para
encobrir suas próprias máscaras.[4]
A
conjunção da violência e da razão é potencialmente tensa, e graças a essa
conjunção, a violência pode tornar-se terror. É a partir daí que começa um
desencadeamento da violência que nada pode diminuir; por sua racionalização, ela se difunde, e o aumento cada
vez maior da criminalidade, da insegurança urbana, faz parte de sua
instrumentalização.[5]
De
certa forma, assim, a violência social acaba por traduzir uma recusa à atomização,
bem postas nas “instituições completas e austeras” - o convento, o colégio,
a caserna, a fábrica – expressões da máxima religiosidade contemporânea da
reclusão.[6]
É possível seguir o percurso e compreender o universo carcerário como símbolo
da sociedade perfeita. Com efeito, não se torna contra-senso falar em violência
construtiva, pois é o mesmo vetor de um mundo demoníaco que traz em si a
renovação da estrutura social.
Alguns
elementos ainda devem ser discutidos. Ela é igualmente “antecipadora”, pois
retrata na destruição sempre uma garantia de construção; e, sobretudo,
“afirmativa” na medida em que remete a um desejo de viver coletivo que
enfrenta o destino com renovada pulsão de vida.[7]
Mesmo
FOUCAULT já alertava para a “utilidade” da delinqüência que, como
“observatório político”, permitia a construção do aparelho onipresente e
onipotente de controle social. Significa que este mecanismo útil é que dará
lastro e justificará as instâncias judiciária e policial de trato social.[8]
De toda forma, quer-se indicar a relação da parte sombria com a qualificação
própria da vida, que uma ordem social especializada tentou abafar, todavia que
a irrupção efêmera do rejeitado teima em desmentir.
Inútil,
pois, tentar eliminar ou negar a presença de um instinto eterno de destruição
que acompanha a pessoa, cabe, sim, ver como ele participa paradoxalmente da
estrutura cotidiana. É o sentido ambivalente da violência, portanto, que
impossibilita qualquer avaliação normativo-judicial sobre ela, principalmente
quando colocamos equivocadamente o fator criminalidade como seu sinônimo.[9]
A
aleatoriedade que a caracteriza faz introduzir outro elemento importante da violência
social, a do presente. Esta pregnância
é que remete à experiência como solidificante social e recupera as diversas
finitudes mundanas, para viver o cotidiano em sua plenitude. Nesta perspectiva
que adentra a figura do limite. É ele que permite ser. A temática do trágico
(jogo entre vida e morte, ordem e desordem...) nos faz lembrar oportunamente que
a limitação é também uma maneira de encarar o aspecto natural da cultura. Só
existe vida, se existe determinação, o próprio marco constitui uma violência,
a qual é fonte de vida. Em síntese, “a violência é um elemento essencial
da construção simbólica do social: precisamente naquilo em que ela nos liga,
ou nos religa, à natureza. É algo que quisemos esquecer, ou que negamos.”[10]
Traz
em si, noutra parte, a negação da visão linear da história com a idéia de
“acaso”, alheia a qualquer pensamento prospectivo. Este componente não
canoniza as ilusões empreendidas por grandes homens (no sentido hegeliano)
detentores da faculdade de objetivar e constituir a “realidade”.
O
simbólico do “tudo está aí” é intimamente ligado, por outro lado, à
figura do excesso, da vertigem e da efervescência. O desejo de viver latente
que se opera no poder dos altares das grandes megalópoles denota de maneira
salutar a revolta dos afetos no transe orgiástico.[11] De encontro a isto que se
falará numa “sociologia da orgia”, oriunda de uma sabedoria demoníaca que
se opõe a violência totalitária desta visão universalista de mundo.[12]
A dinâmica dionisíaca fluida por natureza e incaptável normativamente aponta
para esta ambivalência fundante das formas sociais e desorganiza
definitivamente o quadro moral do “dever-ser”.
A
mônada de LEIBNIZ, a lógica de DESCARTES, e a biologia de DARWIN, forjadores
da moderna idéia individual, sequer de longe conseguem dar conta da permanente
tensão que existe entre as obscuridades vividas e as luminosidades intuitivas.
A idéia prometéica se esgota juntamente com o Estado-nação, arquitetado pela
igualdade e liberdade entre seus membros; e como dirá MAFFESOLI,
ligar
o Aufklärung e os campos de concentração, o humanismo e os massacres mundiais
não é expressão de um resumo supérfluo e falacioso, é somente a conclusão
lógica de um processo de desestruturação simbólica que simplesmente deixa
face a face, um indivíduo isolado e um órgão todo-poderoso, os dois
dominados, cada um seu nível, por uma tendência paranóica.[13]
Enfim,
é a própria aceitação da angústia da contradição que permite as figuras
da alteridade; e se podemos falar em destino ele perpassa a vida na sua
totalidade (sempre inapreensível), mesmo na extravagância, a vida pela qual e
contra a qual combatemos.
O
magistério moral que se assentou como nunca na chamada modernidade, fruto do
messianismo judaico-cristão, é capitaneado pela idéia de “bem”. E bem se
sabe – vale a repetição – que não existe nada pior do que aqueles
arrogados a fazê-lo, principalmente aos outros... Não precisaremos retomar os
etnocídios aos quais referimos ou mesmo aos colonialismos e às inquisições
passadas para atentarmos para a coincidência destas justificações com as
teorias de emancipação modernas.
O
“teorema da parte maldita”, como quer BAUDRILLARD[14], que expurga toda
negatividade em favor da produção ininterrupta de positividade acaba por
assinar a própria sentença de morte. Ao contrário do que se pensa, este
“princípio do mal” é ligado à força vital. Do oposto, a positividade
hiperbólica torna-se incapaz de homeopatizar os elementos negativos, correndo o
enorme risco da catástrofe por reversão total. O homem realizado em sua
totalidade e timoneiro de uma sociedade perfeita fracassa e se defronta com um
poder que tomou forma cada vez mais concreta de simples força simbólica para
designar o Outro, o inimigo, o desafio, o Mal. No fim das contas, esquecemos que
a imperfeição é um dado mundano e um elemento estruturante do vivido.
Em
outro local, reforçará o autor que o homem feito divindade é um absurdo.
“Um deus que rejeita a máscara irônica do inumano, que sai da metáfora
bestial, da metamorfose objetiva onde ele encarnava em silêncio o princípio do
Mal, para se atribuir uma alma e um rosto, endossa ao mesmo tempo a psicologia
hipócrita do humano”.[15]
É
o conflito em seu paroxismo que possui algo de revelador, é nele que a face
obscura da natureza – que a cultura pode em parte domesticar, mas nunca
suprimir – se exprime. Basta lembramo-nos das revoluções e as escleroses que
acometem suas instituições, onde o retorno do conflito torna-se inelutável.
Vez mais, no cotidiano, as festas (hoje em dia vem ao foco as raves, o techno, o
rap...) são rituais de inversão que bem nos falam desta força de anomia. O
disfuncional, o contraditorial não pode ser resolvido numa síntese
pacificadora que rejeite a inteireza da natureza humana. “O medo da sombra da
animalidade é a base da perspectiva universalista”.[16]
No drama moderno é este repúdio à sombra que acaba por eliminar o trágico da
vida humana, que se refere fundamentalmente à força da alteridade.
Este
“mal negado” torna-se uma virtuosa chave de leitura para se entender como se
dá o ressurgimento de formas descontroladas de perversidade. Um equilíbrio
sustentado por um acordo tensional entre realidades é relegado sobremaneira na
contemporaneidade frente a uma “lógica das almas boas”. Na esteira de
NIETZSCHE,[17]
a própria História é fundada na superação deste trágico, estruturalmente
ético que é. A História, como Jardim do Éden do pensamento universal, pois
passível de ser controlada, escamoteou seu aspecto obscuro.
O
espírito do tempo (re)começa permeado pelo trágico, que cada vez mais escapa
do utilitarismo seguro e monocromático do tempo linear. Um eco de humildade
afirmativo da vida comum que troca a certeza de morrer de tédio pelo
afrontamento do destino.[18]
Com efeito, é próprio deste “presenteísmo” não hierarquizar os elementos
mundanos, muito menos torná-los sem sentido, na medida em que não os atrelam a
nenhuma finalidade imanente. Este encerramento do presente e do passado num
eterno instante, ao passo que possa induzir a uma desmesurada urgência,
(re)conduz ao equilíbrio e à harmonia da apreciação do mundo.[19]
Enfim, capilariza-se uma égide barroca de força-emoção-excitação.[20]
Novos arcaísmos que afastam conformismos de pensamento e reatam um saber que
leve a sério a anamnese arquetipológica.
DURAND
neste ponto insiste com freqüência no aspecto do “formigamento – imagem
fugidia, mas primeira” – ligado à agitação do fervilhar próprio da
animalidade, ambivalentemente inquietante e necessário, que remete ao caos
criador (vide a figura da larva que fervilha...).[21]
O
que parece ainda mais difícil da sair da obscuridade é o papel das deidades
tutelares, sejam elas profanas ou não (Deus ou quaisquer outras instituições
sociais, como Estado ou Igreja). Entende-se claramente a denegação da
realidade do “mal” a um plano subalterno, pronto para ser corrigido,
superado e emendado por Elas. Do contrário, evidente o escândalo essencial,
pois fragilizado e relativizado estaria seu poder abrangente. Em outras
palavras, negado ao “mal” seu desempenho estrutural, as diversas doutrinas
nada mais fazem que proteger as instituições e a sua todo-poderosa benevolência.[22]
Estas entidades hipostasiadas souberam como nunca funcionar como implacáveis
mediadoras de uma lógica asséptica desencantada do mundo.
Não
se trata, suma, de apostar na erradicação de uma violência estrutural, mas de
canalizá-la e torná-la suportável de algum modo. Como já dito, o “mal”
é um limite, e como tal também permite ser; sendo linha que demarca, portanto,
funda!
No
momento em que somos permeados por faltas, compostos por buracos, afirmada estará
a incompletude e a evidente indução à partilha, à procura. Esta empatia,[23]
esta possibilidade de disposição, em (com)fusão ao outro é a chave da
vitalidade que cada vez mais faz-nos desfrutar de identificações (como pessoa)
e menos do efeito da lógica da identidade que é o indivíduo. Esta tensão das
multiplicidades cotidianas que o indivíduo fragmentário vive promulga a
ambivalência de uma tradição ocidental que impõe sua razão dogmática, o
que permite a criação de subterfúgios para fugirem das certezas ideológicas
e outros tipos de trapaças.
A
reificação de um ideal unitário de homem – e a própria idéia de homem em
si – desaparece de sua temporalidade de contornos eternos. Em contrapartida,
um reconhecimento do obscuro, das banalidades em si e do mundo acaba por basear
uma atitude de humildade e aceitação frente a esta saturação. Assim, a ambigüidade
que assinala a contradição pode ser entendida como forma de dizer a polissemia
e negar a pretensão asséptica das grandes teorias ocidentais.
Tendo
seus holofotes sempre iluminado o futuro, a cultura judaico-cristã, como
referimos, por mais paradoxal que seja em seu contexto, acaba por negar a própria
morte. Mesmo em versões laicizadas que buscavam a sociedade perfeita, latentes
nos XVIII (o marxismo ganha destaca neste âmbito), a morte em suas diversas
faces – pecado, desordem, anarquia – foi desprovida de realidade lógica,
portanto, devendo ser superada. MAFFESOLI escreve que “a modernidade é um
exemplo flagrante de civilizações que, tendo pretendido esquivar-se à dor,
expulsaram a sombra e por isso mesmo viram proliferar carnificinas e genocídios,
enquanto eram ao mesmo tempo tomadas por uma falta de intensidade existencial.”[24]
O
projeto higienista com a sua assepsia generalizada da vida, tentou sempre
explicar – “explicare”, algo como “tirar as pregas” – esquecendo que sempre existirão
práticas ambivalentes, múltiplos excessos (dobras) no corpo social que não se
pode “despregar”. Afirmamos que diante de um indivíduo, pivô da tradição
ocidental, saturado cresce a importância da vacuidade nos ajuntamentos
contemporâneos, abertos a inteireza do ser.
Neste
turbilhão torna-se quase que risível a idéia de utopia, vivida na distância,
dando lugar às pequenas utopias intersticiais, todas manifestando um instinto
de conservação de grupo.[25]
Quando
o político dá claros sinais de fadiga podemos esperar que pela fresta o místico
volte a mostrar seu rosto. Se a valorização do instante é que começa a
prevalecer (aceitação do mundo tal como é, no “presenteísmo” em mais
alto grau), atualiza-se a serenidade do “kairós”
grego, tempo o qual permite à iniciativa humana a percepção da ocasião
favorável e a escolha instantânea da liberdade.[26] Há uma evidente
ruptura∕abertura na temporalidade linear, onde enfatiza-se as ocasiões e
as oportunidades da vida corrente.
Em
nada a libido trágica da vida “presenteísta” canoniza o “status quo”.
Dinâmica que é por excelência, choca-se com o estático e, ao elevar a
inteireza do “mais-ser”, vive a imperfeição humana em todas suas
potencialidades. Aparentemente, o “bafo do presente”[27]
impulsiona o trajeto antropológico para um retorno que capte as forças
vitais do devir; como quer DURAND, do “regime noturno” da cultura.[28]
Aparentemente
um ciclo se fecha. Já não há adesão a princípios de fachada, desconectados
da realidade vivida. O hedonismo difuso que se dissemina e as tribos urbanas dão
bem os contornos dessa mutação. É a mística de Dioniso[29]
que toma o lugar do progressismo, ou seja, reafirma-se a pessoa num mundo plural
onde se tende a “homeopatizar” o que se atribuiu uma estética maléfica e
integrá-lo como um elemento entre outros.[30]
“Talvez o medo, a dor, o sofrimento promovidos pela violência estejam
vinculados aos símbolos nictomorfos, que se multiplicam e deixam menos espaço
para outras configurações simbólicas que os pudessem neutralizar.”[31]
Impõe-se
um redimensionamento no modo de pensar que dê vazão à libido de sentir, esta
orgiástica difusa que não cabe simplesmente em categorias cientifizantes
prontas para “dominar”. Nossas arrogâncias bem-pensantes insistem em pautá-las
pelos parâmetros jurídico-políticos, enquanto a trindade laica Indivíduo,
História e Razão (à imagem do mistério da trindade) se esgota no instante e
na urgência.
Isto
traz, sobremaneira, uma reintegração no sentido natural de retorno da violência,
não negá-la, e assumi-la como condição de fato da natureza, jamais
afastando-a como quis os impulsos de organização da sociedade contemporânea.
Na esteira de SILVA[32],
quem sabe, não será o momento de nos questionar se não devemos soltar nossas
bruxas e gaviões, forças estas que nunca foram - e nunca deveriam ter sido –
contidas, e que foram mascaradas pelos modernistas de todos os quadrantes?
Quiçá
aceitando o mal, em suas mais diferentes modulações, não alcancemos uma certa
alegria de viver? Prometeu está dando lugar ao efervescente Dioniso? Declinando
da mera crítica ou explicação, mas tentando compreender e admitir, não se
trata de pensar na mais clara transformação do “amor fati” (“amor do
destino”) nietzschiano num “amor mundi”
(“amor do mundo”) pelo que ele é?[33]
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Max. Essai sur vuelques catégories de la sociologie compréhensive.
Essai sur la théorie de la science. Paris:
Plon, 1992.
[1]
MAFFESOLI, Michel. Dinâmica da Violência.
São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, Edições Vértice, 1987, p. 21.
[2]
Talvez não haja no amplo leque das políticas-criminais hoje vertente que
mais dê azo a esta evidência que os famigerados “movimentos de Lei e de
Ordem”, onde a criminalização da marginalidade e a repressão das
categorias deserdadas fazem às vezes de política social. WACQUANT é um
dos autores que mais se ocupam desta temática, indo na contracorrente do
eclipse etnográfico nas prisões, exatamente no momento em que era mais
urgente e necessário este trabalho. Para um maior aprofundamento na
meteria, consultar fundamentalmente: WACQUANT, Löic. O curioso eclipse da
etnografia prisional na era do encarceramento de massa.
Discursos Sediciosos (13). Rio de Janeiro: Instituto carioca de
Criminologia/Freitas Bastos, 2004, p. 11-32; WACQUANT, Löic. A ascensão do
Estado penal nos Estados Unidos.
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Criminologia/Freitas Bastos, 2002, p. 13-39; WACQUANT, Löic. Punir
os Pobres: a nova gestão da miséria nos Estados Unidos. Rio de
Janeiro: Instituto carioca de Criminologia/Freitas Bastos, 2001; WACQUANT, Löic.
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20-29; WACQUANT, Löic, A
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A tentação penal na Europa.
Discursos Sediciosos (11). Rio de Janeiro: Instituto carioca de
Criminologia/Freitas Bastos, 2002, p. 07-11.
[3]
MAFFESOLI, Michel. Dinâmica da Violência,
p. 14.
[4]
WEBER,
Max. Essai sur vuelques catégories de la sociologie compréhensive.
Essai sur la théorie de la science. Paris:
Plon, 1992, p. 351-352.
[5]
MAFFESOLI, Michel. Dinâmica da Violência,
p. 18.
[6]
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento
da prisão. Petrópoles: Vozes, 1987, p. 195-214.
[7]
MAFFESOLI, Michel. Dinâmica da Violência,
p. 27.
[8]
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento
da prisão, p. 226-242.
[9]
MAFFESOLI, Michel. Dinâmica da Violência,
p. 41.
[10]
MAFFESOLI, Michel. A Parte do Diabo:
resumo da subversão pós-moderna. Rio de Janeiro: Record, 2004, pp.
69-70.
[11]
MAFFESOLI, Michel. Notas sobre a Pós-modernidade:
o lugar faz o elo. Rio de Janeiro: Atlântica Editora, 2004, p. 47-76.
[12]
MAFFESOLI, Michel. A sombra de Dionísio:
contribuição a uma sociologia da orgia. 2ªed. São Paulo: Zouk, 2005.
O “orgiasmo”, tal como apregoa o autor, diz respeito, acima de tudo, a
maneira de propor a questão da socialidade (alteridade). O “higienismo”,
como moral oficial de um Estado de (pseudo)bem-estar, acionou mecanismos de
exclusão com todas as conseqüências de fanatismo e inquisição já
sabidas. Pois é quando se reprime o lado escuro e lhe nega expressão, como
fez a modernidade, “arrisca-se a que se retorne violenta e incontrolável”.
“Em um espaço civilizacional determinado, a predominância
intempestiva dos valores apolíneos leva a violência obscura aos piores
excessos, e assim massacres, devastações, campos de concentração e
outros genocídios, que são exemplos instrutivos a esse respeito, costumam
ocorrer após uma dominação incontrastável da razão”
(Op. cit., p. 110). Por certo,
vez mais frise-se, que não se está tentando justificar qualquer tipo de
violência, apenas depreender que ela sempre esteve, está e permanecerá aí.
Afastamo-nos apenas do discurso conjuntural de “bom-tom” marcado pelo
medo que proclama a todos o aumento da violência. Deixamos para as “belas
almas” pôr em destaque as supostas evidências desta barbárie.
[13]
MAFFESOLI, Michel. Dinâmica da Violência,
p. 90.
[14]
BAUDRILLARD, Jean. A Transparência do
Mal: ensaio sobre fenômenos extremos. Campinas: Papirus, 1992, p. 113.
[15]
BAUDRILLARD, Jean. As Estratégias
Fatais. Rio de Janeiro: Rocco, 1996, p. 162.
[16]
MAFFESOLI, Michel. A Parte do Diabo:
resumo da subversão pós-moderna, p. 38.
[17]
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Considerações Extemporâneas: Da utilidade e
desvantagem da história para a vida.
Obras Incompletas. São Paulo: Abril Cultura, 1983, p. 65.
[18]
MAFFESOLI, Michel. O Eterno Instante:
o retorno do trágico nas sociedades pós-modernas. Lisboa: Piaget,
2000, p. 26.
[19]
Na fuga de um tempo homogêneo e vazio, arrisquemos as palavras de BENJAMIM,
que sublinhava no messianismo judaico, onde era proibido investigar o
futuro, a chegada do Messias a qualquer momento. Por isso esta temporalidade
importaria, sobretudo, porque é nela que se permite a realização de si;
“pois nele[tempo] cada segundo era a porta estreita pela qual podia
penetrar o Messias”. BENJAMIM, Walter. Sobre o conceito da história.
Magia e Técnica, arte e política: Ensaios sobre literatura e história
da cultura. Obras Escolhidas, volume 1. 3ª ed.. São Paulo: Editora
brasiliense, 1987, p. 232.
[20]
A “barroquização” das sociedades não é nada senão uma característica
central do chamado “homo estheticus”. Por isso falará de uma “ética
estética”, ou seja, de um movimento circular sem fim – ética – que
agrega o grupo tornando-se estética, emoção comum e vice-versa. MAFFESOLI,
Michel. No Fundo das Aparências. Petrópolis: Vozes, 1996, p. 185-229.
[21]
DURAND, Gilbert. As Estruturas
Antropológicas do Imaginário: introdução à arquetipologia geral. São
Paulo: Martins Fontes: 1997, p.73-74.
[22]
MAFFESOLI, Michel. A Parte do Diabo: resumo da subversão pós-moderna, p. 77-78.
[23]
MAFFESOLI, Michel. O Eterno Instante:
o retorno do trágico nas sociedades pós-modernas, p. 170-192.
[24]
MAFFESOLI, Michel. A Parte do Diabo:
resumo da subversão pós-moderna, p. 128.
[25]
MAFFESOLI, Michel. A Transfiguração
do Político: A tribalização do mundo. Porto Alegre: Sulina, 1997, p.
98-116.
[26]
“Do mesmo modo que ao tempo vazio, contínuo e infinito do historicismo
vulgar é preciso opor um tempo cheio, descontínuo e acabado do prazer.
MARTINS, Rui Cunha. O nome da alma: “memória”, por hipótese”.
Qualidade do Tempo: Para Além das Aparências Históricas, GAUER, Ruth.
Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2004, p. 28.
[27]
MAFFESOLI, Michel. A Parte do Diabo:
resumo da subversão pós-moderna, p. 167.
[28]
DURAND, Gilbert. Estruturas Antropológicas
do Imaginário: introdução à arquetipologia geral, pp. 191 e 198.
[29]
Fazemos referência à leitura nietzschiana quanto à Dionísio e Apolo,
ambos deuses protetores da arte. Em termos amplos, este se refere ao lado
luminoso da existência, às formas puras, enfim ao princípio da individuação;
aquele é o deus da música, aquele que vem do estrangeiro, desintegrador o
“eu”, caracterizado pela embriaguez, pela desmedida, pela transgressão
e pelo excesso. VATTIMO, Gianni. Introducción
a Nietzsche. Barcelona: Ediciones Península, 1985, p. 29.
[30]
Aqui não se pretende eternizar as meras dicotomizações – bem\mal;
bom\ruim; belo\feio... – que se afastam da complexa dinâmica social;
muito menos atrelar o fenômeno violência a algo ontologicamente mal –
ainda mais quando nos aproximamos do recorte criminal. Suma, não nos
utilizamos da mesma lógica de defesa social tão difundida no meio acadêmico
(“moçinhos” versus “bandidos”), apenas procuramos mostrar o quanto
este paradigma moderno higienista tentou mascarar facetas do humano – e na
maioria das vezes criminalizá-las – e o fluxo de socialidade que teima em
reconduzir esta parte renegado da pessoa.
[31]
GAUER, Ruth Maria Chittó. Alguns
Aspectos da Fenomenologia da Violência, p. 33.
[32]
SILVA, Hélio. A Língua Geral da Violência. A
Fenomenologia da Violência. GAUER, Gabriel J. Chittó e GAUER, Ruth
M. Chittó (org.). Curitiba: Juruá, 1999, p. 47.
[33]
MAFFESOLI,
Michel. Sobre o Nomadismo: vagabundagens pós-modernas. Rio de Janeiro:
Record, 2001, p. 11.
Desde 09/11/2005