SOCIOLOGIA JURÍDICA


RESENHA 

LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio. Ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Barueri: Manole, 2005. p. 197.[1]

Guilherme Camargo Massaú – Professor das Faculdades Atlântico Sul-Pelotas/Anhanguera Educacional; Mestre em Direito pela Universidade de Coimbra; Especialista em Ciências Penais PUCRS.

E-mail: uassam@bol.com.br

 

            Lipovetsky busca traçar a nova formação social, caracterizada pela flexibilização moral, porém com cores fortes a delimitar a fronteira do certo e errado. Significa uma constante exigência moral nas relações, mas uma moral ampla e ajustada a cada individualidade. Por isso, uma era sem ideologia, sem imposições de sofrimentos éticos. É um vazio sem catástrofe e sem drama. Diante de tudo isso, um referencial continua o mesmo e cada vez mais forte: o indivíduo e seus direitos de se desenvolver solipsisticamente.

            1. O autor inicia por invocar o poder da sedução numa sociedade propensa a isso, ou seja, num hedonismo dominante no meio social. Isso está ligado com o espetáculo do acúmulo que não multiplica os bens, mas as opções de cada indivíduo; significa a multiplicidade de escolhas de produtos e de serviços, compondo uma crescente variabilidade de escolhas e facilitando a construção individualizada de cada eu. Logo, são possíveis infinitas combinações na intenção de estruturar o indivíduo. Como conseqüência, a velha alienação oriunda da imposição de opções limitadas cede lugar para as inúmeras “verdades” a serem escolhidas. A cultura pós-moderna emancipou e autonomizou o indivíduo definitivamente, ou seja, concretizou a promessa moderna.

            2. O vazio, ao contrário do esperado, não trouxe angústia, não provocou atordoamentos, mas apatia a determinadas questões. Daí surge a indiferença pelo excesso de possibilidades socializadoras. A apatia gera a aceleração das experimentações e explorações.

            3. O narcisismo é invocado para representar a época contemporânea, principalmente quando se trata da sociedade norte-americana, mas não só, nestas, ele está espalhado pelos rincões do mundo. O significado disso encontra-se no amor-próprio, sem precisar de outra pessoa para alcançar a felicidade. Diante disso, o narcisismo surge de um hiperinvestimento ordenador funcionando como um controle social sobre o corpo e a alma. Dele participa o auto-controle, capaz de manter um indivíduo exteriormente estável diante de situações limites.

            4. O modernismo artístico busca destruir as normas, inovar sempre na forma de uma autodestruição criadora. Não aceita a tradição e contraria até mesmo conceitos recentes, por isso, está sempre em constante inovação. É justamente na inovação que se concentra o valor da sociedade atual, num viver intensamente. Para isso a liberdade deve ser intensificada, logo, o suporte democrático torna-se fundamental.

            A democracia permite ao modernismo artístico subverter as normas estilísticas, quebrando aspectos estéticos. Isso implica uma manifestação livre dos sentimentos, em obras que não são meramente descritivas, porém interpretativas. Não existe mais expectador privilegiado nem ponto de vista fixo/correto e sim fluído. Na cultura pós-moderna dá-se a radicalização desses aspectos, agora sem ninguém pôr em dúvida a qualidade e significação cultural.

            A liberdade total não poupa nem os sentimentos de prazer, deixando-os no âmbito da indiferença. Assim, o pós-modernismo busca personalizar a arte, num processo de inclusão das diversas manifestações artísticas, rompendo com o dirigismo da tradição – abre-se espaço para todas as vertentes, numa autêntica revelação narcisista.

            5. O humor se modificou e se desubstancializou, deixou de ser levado a sério e perdeu conexão com certos grupos, alvos desse humor. Os personagens do humor são distanciados da realidade na qual estão inseridos; o humor passa a ser carnal e personalizado. A propaganda junta esses fatores para divulgar os produtos que veicula. Encontra suporte em aspectos culturais, de forma a atuar sutilmente na cabeça do consumidor. Também ela revela um humor insidioso. A moda reflete as mesmas orientações.

            O hedonismo está presente, não existem mais barreiras no condizente a mostrar as fraquezas, mas elas são exibidas com um humor tendenciando/tangenciando a beleza da abordagem; não há – ou são poucos – barreiras morais para expressar as próprias falhas. Os defeitos não são mais motivo de brincadeiras, mas de condições constitutivas da personalidade.

            6. A violência selvagem já foi guiada por dois códigos: a honra e a vingança, as quais foram afastadas do cenário público mesmo momento em que a modernidade ganhou espaço. Portanto, a época de ouro da violência encontra-se na predominância da honra e da vingança, duas marcas atribuidoras de prestígio diante do grupo. Este possuía mais relevância do que qualquer outra coisa, ou seja, o indivíduo só tinha valor quando pertencente a uma coletividade. As inter-relações, nessa configuração social, estão baseadas no sangue. Com a tomada de poder pelo Estado, a vingança é substituída por punição estatal, por uma justiça pública; a vingança põe em risco e estabilidade do poder do Estado, é um dos principais motivos para o Estado tomar as rédeas da punição. O Estado policial é requisitado pela desvalorização da violência e pelo isolamento ou individualização das pessoas perante seus pares, por isso a segurança pública cresce em importância no âmbito público, sendo isso tudo reflexo do processo civilizador.

            No decorrer do texto o autor chama a atenção para a atual violência que ele denomina hard; uma violência sem sentido, cometida por pessoas sem determinação e com medo. Além disso, destaca o número grande de jovens envolvidos em crimes e suicídios. Está aí a forte evidencia de uma sociedade narcisista favorável à hiperindividualização da pessoa, porém, o espetáculo assistencialista atrai os indivíduos solipsistas e logo se revela um paradoxo compreensível: o indivíduo hiperindividualizado é possuidor de traços de compaixão pelos outros, desde que essa compaixão não se torne um fardo pesado.


 


[1] Título original: L’ère du vide. Essais sur l’individualisme contemporain. Éditions Gallirmard, 1993.

 

   Desde 27/04/2008