SOCIOLOGIA JURÍDICA
Estado
K.
ou
o Povo dos Camundongos
Vinício C. Martinez - Bacharel
em Direito e em Ciências Sociais. Publicou livros e inúmeros artigos, é
Mestre em educação (UNESP-Marília), mestre em Direito (Faculdade Estadual de
Direito – Jacarezinho-PR) e Doutor em Educação (USP). É professor de Teoria
Geral do Estado (graduação) e Fundamentos Sociológicos do Direito (Mestrado
em Direito), na Fundação/UNIVEM de Marília, e membro Pesquisador do NEPI (Núcleo
de Estudos, de Pesquisas, de Integração e de Práticas Interativas), filiado
ao CNPq.
Resumo:
Franz Kafka é um dos grandes gênios do século XX e por isso continua a
atrair a atenção de jovens estudantes de diversas áreas do conhecimento, como
literatura, filosofia, psicologia. Suas obras são igualmente consagradas por
estudiosos da sociologia, psicanálise e do direito, a começar do livro/romance
“O Processo” até a novela chamada “Da Colônia Penal”, passando por
muitos contos, como este que vamos trabalhar mais: “Josefina, a cantora ou O Povo dos Camundongos”.
Palavras-chave:
Estado de Exceção; Estado Arbitrário; Fascismo; Política; Direito.
Sumário:
1. O não-Direito em Kafka; 2. Do sujeito e da Ação Repressora; 3.
Bibliografia.
Como se sabe, Kafka travou uma luta pessoal em três frentes de batalha:
a) contra o menosprezo do próprio pai (chamava-o de escritor medíocre); b)
contra a depressão profunda provocada pela tuberculose (daí a importância de
se valorizar sua biografia); c) contra o nazismo que já se avolumava na
Alemanha.
O próprio conto “O Povo dos Camundongos” (1924) foi confiscado pela
polícia repressora da época e isto mostra como eram aqueles tempos pré-nazistas.
Além de sua luta pessoal, Kafka tem de ser lembrado como um combatente da
liberdade, como um autor que se divertia escrevendo, mas que sofria ao ver as
barbaridades que o regime político alemão já orquestrava.
No
conto, Josefina é uma tirana que não admite ser contestada por seus súditos,
apesar de ser questionada quanto à sua qualidade musical. Portanto, o conto nos
revelaria um pouco os meandros do regime e da personalidade autoritária.
Kafka não é um autor muito fácil de se ler, porque os livros mais
densos costumam enredar o leitor pela trama afora. Sem dúvida, isto é sinal de
sua riqueza detalhista, mas também cansa um pouco. Porém, de bons desafios é
do que mais precisamos, se queremos melhorar nossa política e nosso país.
Por
isso, a seguir, veremos uma metáfora dessa relação/oposição Direito X
Arbítrio, utilizando-nos de uma metáfora de Kafka. Na metáfora, em suma,
veremos que há um processo de culpabilização
das vítimas.
1.
O
não-Direito em Kafka
[1]
No texto, veremos o Estado de não-Direito
como categoria política negativa do Direito como fato social. No pólo positivo
do antagonismo, poderíamos ver o Estado Jurídico como negação do não-Direito.
Os caminhos para esse tipo de abordagem são inúmeros, porém utilizaremos uma
das muitas metáforas de Franz Kafka que, além do romance O
Processo, escreveu contos que nos permitem essa mesma leitura, a exemplo de Josefina,
a cantora ou O Povo dos Camundongos.
As metáforas de Kafka, portanto, serão aqui empregadas como antíteses
do não-Direito (Reale, 2005), ou
seja, como negação do arbítrio e da violência que se desencadeia a partir da
negação inicial. Trataremos de algumas características do que chamaremos de Estado
K., como um tipo de Estado de Exceção.
Os contos de Kafka, desse momento de sua vida (entre 1922 e 1924),
remetem-nos à abordagem metafórica e crítica dos regimes políticos autocráticos,
principalmente se partirmos de sua experiência pessoal às vésperas da erupção
nazista. Basicamente, os contos antinazistas reunidos nesse período são: Uma
pequena mulher; Um artista da fome; Josefina,
a cantora ou O Povo dos Camundongos; A
Construção (Kafka, 2002, p. 112).
Para esta análise, vamos nos deter mais especificamente no conto Josefina, a cantora ou O Povo dos Camundongos, em que destacaremos
o que chamamos de os princípios básicos
da autocracia e suas conseqüências. Um ponto inicial no conto é a revelação
de que a elitização cultural é necessária
a fim de se destacar – para fins de comparação[2]
– a mediocridade popular.
Referindo-se à personagem central, à cantora Josefina, Kafka – por
intermédio de seu narrador – refere-se da seguinte forma:
Ela
tem só desprezo por aqueles que têm opinião contrária à sua – e
provavelmente um ódio não confessado [...] a arte dela nos faz bem e quando
nos sentimos bem, assobiamos; mas sua audiência não assobia, nela nem um rato
bole, como se participássemos todos da paz almejada, da qual nosso próprio
assobio no mínimo nos aparta – e por isso silenciamos. É seu canto o que nos
enleva ou a quietude solene que envolve a fraca vozinha? (Kafka, 2002, pp.
40-41).
Diga-se
de passagem que o narrador é persona non
grata, além de que enfrenta um terrível processo de coisificação e de
inculcação do sentimento de inferioridade: o camundongo é um ser inferior,
uma coisa menor.
Na
mesma linha, mas no pólo da coisa maior, decorre a visão ou a percepção
geral sobre a personalidade da personagem Josefina. Daí advém nossa interpretação
acerca dos princípios e das características que conformam a opressão
nazi-fascista. Por isso, os três princípios iniciais destacados são:
Primeiro
Princípio:
“insuflar ódio e instigar desprezo pelos inferiores”.
Segundo
Princípio:
“Alimentar a arrogância”.
Terceiro Princípio: “Impor o silêncio e a resignação”.
É
claro como os três quesitos estão interligados, mas, no caso do terceiro princípio,
é evidente a conjugação de três verbos de forma negativa. A do narrador no
Estado K. (a própria voz popular) soa fraca, afogada, rouca, tênue, sonolenta,
quando diz: não vi; não ouvi; não
falei – ao contrário de Júlio César, de posse da máquina de matar do
Estado que, ao conquistar seu imenso poderio, vaticinava: vim,
vi, venci.
2.
Do sujeito e da Ação Repressora
Os
sujeitos – na verdade, uma espécie de narradores
condenados (Josefina não permite que ninguém pense e fale por si) –
fazem ouvidos moucos, de mercadores, como forma de oposição resignada de
espantalho, como povo estupefato e nutrindo plena devoção: acrítica,
insuspeita, irreal. Assim, a conseqüência é clara: alimenta-se ainda mais o
sentimento de inferioridade que lhe deu origem.
Disto decorrerá de forma lógica o quarto
pressuposto, qual seja, “a obediência natural”. A questão mais
intrigante é, sem dúvida, histórica: comparativamente à história da Segunda
Guerra Mundial, por que uma caricatura
(Hitler) pôde ser objeto de tanta devoção?
Uma resposta plausível justifica-se porque o falso narrador apresenta-se
sob o manto do salvacionismo (quinto
princípio). Pelo silvo da ignorância, impõe-se não a dominação
racional, mas a dominação brutal, meio-bestial, porque se alimenta a ignorância
com mais ignorância, com maior castração. A verdade não dita a todos os
interessados é simples e direta: salvar o
povo é fácil, pois o povo sempre se salva, e quase sempre por si só.
O sexto princípio
também não poderia ser outro que não fosse alimentar
a ignorância, pois com isso se ignoram os fatos, seus matizes, as contradições,
as meias-verdades, as idiossincrasias,
as dissimulações, as tergiversações, as ideologias-totalizantes. Da regra jurídica que possa haver, vai-se
imediatamente à excrescência social.
O sétimo item,
igualmente decorrente dessa série de manipulações/desfigurações, recorre-se
da destruição da inocência, em que todo o povo é alçado à condição de
culpado, até que se prove em contrário. Neste caso, vive-se em martírio,
penitência, abnegação, obstinadamente infeliz até que se possa expiar toda a
culpa.
A
juventude nazista e stalinista julgava, culpava e delatava os próprios pais.
Essa vida pública tirada a fórceps, em que a infância é mutilada, com
menosprezo do lúdico (daí o machismo: “é coisa de meninas ou de
afeminados”), acaba por construir mini-adultos robotizados, em vivência de
neurose total.
Trata-se,
portanto, de uma vida-pública-totalizante,
mas sem convivência, com vida social interativa, passível de ser com-partilhada: o robô não era e não é inteligente, sendo
incapaz de projetar e de reconhecer o Outro. E este é o oitavo princípio, e que, por sua vez, liga-se ao próximo
item, que é a infantilização no trato das questões sociais sérias: apenas
as autoridades são adultas o suficiente, sendo os demais apenas robotizados (nono
princípio): a idiotia vira assunto-reflexo do Estado.
Diante
do novo, a resposta é invariavelmente anacrônica e reacionária: “a salvação
está no passado”, o futuro é cópia desse passado (décimo
princípio), o que nos leva a mais um pressuposto: rejeitar a
descontração ou a informalidade. O formalismo, a burocratização das relações
cotidianas e sociais, a demonstração do controle formal dos meios de poder,
esses dados constituem a mediação possível daqueles que, diante do poder
de fato, não admitem a nulidade de si mesmos. Uma falácia de seriedade, um
processo de coisificação como no Capote
de Gogol. A vida burocrática passa a ser a “coisa” mais importante que se
tem (11º princípio).
Os
salvadores, aqueles que se colocaram acima dessa bestificação (porque são os
precursores do próprio processo), instigam um nivelamento por baixo, no sentido
de que não há saída fora desse sistema circular, vicioso, recrudescido,
violento: a desesperança é provocadora do cinismo, e este é o 13º
princípio. Já o 12º
princípio é justamente viver sob a desesperança, e viver
desesperadamente, tensionado, estressado.
Assim,
novamente, pode entrar em cena o salvador,
a fim de alimentar um sonho grandioso de poder
de império (como cópia do Império Romano, o III Reich queria durar mil
anos), partindo-se da sedução (falácia) de uma paz grandiosa, infinita,
portanto, eternamente sedutora: o 14º
princípio.
O
15º pressuposto não pode ir muito longe e irá revelar que o
sábio fascista é aquele que fala o que o
povo quer ouvir (nem mais, nem menos), sem provocar nenhum desconforto, angústia
ou inquietude de alma. O que se faz é
repetir o senso-comum e reforçar a ignorância da “inocente simplicidade”.
Isto é, o populista não deve revelar a verdade, só os fatos que lhe
interessam, na toada da música que embala a plebe ignara: o máximo de cultura
fascista é um Vivaldi para dormir.
O
bom-senso (do tipo: “quem usa,
cuida”) que possa haver na voz rouca das ruas, deve ser combatido em razão da crítica que de
fato alimenta sua ironia, e que é substituída pela razão bovina do senso-comum.
Nossa música, com esse intuito, já alertava para o perigo da resignação:
“Vocês que fazem parte dessa massa que passa nos projetos do futuro [...] E
ver que toda essa engrenagem já sente a ferrugem lhe comer [...] Lá fora faz
um tempo confortável, a vigilância toma conta do normal [...] O povo foge da
ignorância apesar de viver tão perto dela [...] Esperam nova possibilidade de
verem esse mundo se acabar [...] E ô ô vida de gado, povo marcado ê, povo
feliz” (Zé Ramalho).
Portanto,
aqui, o ditado popular é falsamente apaziguador, porque perdeu a manjedoura da
consciência popular. Esqueceu-se (ou quer esquecer) que a sabedoria popular
desafia a si mesma, mais exatamente porque tem as duas faces da mesma moeda:
enquanto assegura que “quem trabalha, não tem tempo de ganhar dinheiro”.
Sob a tutela da canga (jungido ao jugo), até mesmo como mecanismo de sobrevivência,
o povo-sábio se vê obrigado a pular para trás, ou então atira no pé, ao
recomendar que se deve “deixar como está, para ver como fica”. Nesta que é
a máquina da ignorância fascista.
Quando
submetido à tutela estatal, a cultura popular permanece realmente dúbia;
enfrentando um doloroso processo de despersonalização, a parca cultura resta
com sentido duplo, impreciso, sem destinação. Também se fala de uma espécie
de culpa culturalmente interiorizada no povo, com intuito claro de sua
despersonalização, submetendo-o a um incessante, massacrante processo de
inculcação do sentimento de inferioridade.
Nesta
fase, perdeu-se a capacidade crítica das próprias tradições e, outra vez, o
discurso salvacionista nos remete a alimentar uma postura fraternal. Mas,
sabendo-se desde logo que os mandantes estão sempre acima da lei – no Brasil,
vivemos um claro bordão da injustiça disseminada e sistêmica: “aos amigos
tudo; aos inimigos, a lei”. Neste que é o 16º
princípio fascista.
O
17º princípio seria um tipo de resumo do que vimos até agora
– é de interesse direto produzir um discurso
de autoridade que reafirme as verdades absolutas –, pois com os dogmas,
faz-se da política, uma evangelização. O evangelho ou a catequese que, por
sua vez, produz um conhecimento a ser apropriado pelos escolhidos (a
“profissionalização da política”), pelos que têm mérito para tal – e
esta é a meritocracia[3] que vemos surgir como
ideologia no 19º princípio.
A
verdade absoluta, todavia, está a cargo das lideranças e das mesmas elites que
a produziram, isto é, quando se refere ao povo se joga baseado no improviso,
provocando-se um sentimento de insegurança geral. Isto ocorre porque se quer a
proteção apenas das elites e porque assim os líderes podem produzir um
discurso de defesa ou de salvação de si mesmos. Com isso fechamos o 18º
pressuposto.
Já
os demais princípios, vamos apenas indicá-los: 20º) idolatria do trabalho; 21º)
provocação de ansiedades; 22º) exacerbação das próprias qualidades; 23º)
celebração dos fins que justificam os meios; 24º) burocratização de todo espaço
social; 25º) reiteração da mentira; 26º) teatralização e infantilização
do espaço público; 27º) bajulação dos poderosos; 28º) celebração e
personalização do poder; 29º) “popularização populista”, mas não
popular.
No
mundo de Kafka e de Josefina, e no nosso também, há muitos sujeitos
de direito, mas quase-nenhum sujeito
de fato, como sujeitos sociais provocadores de fatos históricos. Com
certeza, Kafka ficaria muito mais feliz em reconhecer o Sujeito Social Histórico
do que debater-se com o famoso “operador do direito” – até porque este
está contido no primeiro, mas sem que ocorra o contrário. E este talvez fosse
o primeiro passo justo e democrático.
É
evidente que essas conjecturas não foram expressas por Kafka – ao menos não
de forma tão clara –, mas foram os sentimentos gerados neste leitor pela
leitura de seus contos, e pela sensação de que o autor realmente combatia o
nazismo. Sob esse ângulo, por fim, o Estado Jurídico é aquela instituição pública
que reúne instrumentos de combate ao pensamento nazi-fascista.
3.
Bibliografia
ARENDT,
Hannah. Sobre a violência. Rio de
Janeiro: Relume-Dumará, 1994.
ECO,
Umberto. Cinco escritos morais. 3. ed.
Rio de Janeiro: Record, 1998.
KAFKA,
Franz. Um artista da fome - A Construção.
2ª reimp. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
REALE,
Miguel. Lições Preliminares de Direito.
27 ed. São Paulo: Saraiva, 2005.
[1]
O texto foi produzido para ser apresentado no evento “Estranhamento e
sociabilidade: uma análise crítica de O Processo de Franz Kafka”, na
UNESP-Marília, dia 07/10/2005. Curiosamente, o próprio título foi alvo de
críticas, pois seria insólito, inapropriado para este crítico que se
mostrou dogmático demais.
[2]
Diríamos comparação e auto-afirmação, mais autocrática do que
meritocrática.
[3]
Um processo elitista que separa do meio do povo multicultural e miscigenado,
todo ser social cara-pálida.
Desde 29/10/2005